UMA CARTA ENTRE OS MEUS GUARDADOS
Minha caixinha de pequenas lembranças!
De vez em quando a visito. É tão bom! Ela guarda
pedaços de minha vida.
Encontrei hoje entre meus guardados uma carta
amarelada pelo tempo. A letra de sempre, tão miúda. Está tão envelhecida e
encontro dentro dela um tempo morto e de repente descubro que não morre nunca.
Vou transcrevê-la aqui sem mudar uma vírgula de lugar.
MINHA MÃE
Mãe!
Criatura sublime.
Você está em toda minha vida, em todos meus momentos.
Eu cresci cercada de seu carinho, de seu amor, de sua
dedicação.
Seu rosto risonho, seu olhar bondoso, a ternura que
emana de seus gestos.
Quantas vezes eu chorei com o rosto colado ao seu.
Suas mãos milagrosas afagando meus cabelos.
Eu sentia tantas dores de ouvido que só passavam com
suas mãos quentinhas acariciando levemente minhas orelhas.
Você sempre pronta a nos ajudar, sempre orientando
nossos passos. Você foi me mostrando a vida, os caminhos.
Vive se dando a nós com tanto amor e compreensão.
Mãe, quanto você sofreu por nós! Sofre ainda.
Eu sempre mais apegada a você, mais frágil e mais
sedenta de afetos.
Quanto você sofreu quando eu fiquei doente. Eu me
tornei uma criatura intratável, revoltada, esquisita.
E seus olhos cheios de lágrimas me olhavam assustados;
parece que você procurava aquela menina meiga e mansa que eu era.
Foram longos anos de sofrimento. A cadeira de rodas,
minha palidez, minha magreza, minhas pernas engessadas, minhas dores, o
hospital, os médicos tirando as esperanças.
Eu reduzida a quase nada.
Nós vencemos mãe! Eu voltei a andar!
Mas o sofrimento acostumou-se a ser meu companheiro e de
vez em quando ele volta, mas eu estou mais forte.
Conheci o amor, e me tornei feliz.
Voltei a ser meiga, mansa, sentimental e voltei a
acreditar.
Eu não a sua única preocupação, o seu único problema.
Existem tantos e com sua serenidade todos são resolvidos.
Se eu me pusesse a escrever sobre você daria um livro
e seria um belo livro.
Um tanto triste, decerto.
Eu sou uma parte sua, mas você é tanto para mim.
Estamos ligadas uma a outra por um sentimento forte.
Ontem nós vimos a cadeira de rodas que emprestaram
para mim e eu senti muita dor, mas você mãe, sentiu um nó lhe apertar a
garganta, né?
Quantas lágrimas você escondeu de mim, mas eu sei, eu
sinto quando você está chorando escondida.
Você me deu a vida e tudo de bom que eu tenho, e só
posso lhe dar em troca meu imenso amor.
Santa Rita, 21 de julho de 1977
sonia delsin

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