Ó...
eu estava me esquecendo.
Eu estava sim.
Estava me esquecendo de agradecer todos os dias a Deus pelos meus pés.
Vou lhes contar
porque.
Eu tinha quinze
anos. A idade que começamos a descobrir as maravilhas de estar vivo.
Era uma mocinha
elétrica, praticava esportes, era aluna exemplar e já me encantava com a vida.
Certo dia me
apareceram umas agudas dores nos pés. Na ocasião eu praticava salto em altura e
a professora de educação física me levou para casa, preocupada, achando que eu
estava tendo uma distensão ou algo parecido.
Mas as dores não
me deixavam nos dias consecutivos.
Os médicos
acabaram por fim descobrindo que eu havia nascido com uma síndrome, e que, com
o crescimento, algo se manifestara dos nervos dos pés.
Foram anos duros
aqueles. Sim anos. Eu fiquei definhando sobre um leito e apesar das cirurgias,
dos meses engessada, as dores não me deixavam.
Só mesmo
passando por uma coisa semelhante para se imaginar.
Experimentei um
sofrimento tamanho que é inarrável.
Bem, depois de
muito tempo lutando contra aquela ingrata doença que me roubava os melhores
anos, encontramos um médico que prometeu me pôr de pé em dois ou três meses.
Era um doutor de
cabelos grisalhos, fala mansa, gestos calmos. Dizem que ainda vive. Deve estar
bem idoso agora.
Eu jamais
esquecerei o pequeno diálogo que tivemos no centro cirúrgico. As frases que
trocamos foram mais ou menos estas:
─ Menina, está na hora de viver na vertical. Já faz tempo demais que
descansa na horizontal.
Sorri um tímido sorriso com o coração trêmulo. Eu, que por dois anos não pudera
colocar os pés no chão. A dor era insuportável, e mesmo na cadeira de rodas, as
pernas sempre tinham que estar esticadas.
Eu lhe disse:
─ É o meu maior desejo doutor.
─ Eu farei uma cirurgias muito delicadas em você. Mas eu preciso que
você deseje a cura e acredite nela.
─ Dr. Fábio, eu vou estar andando daqui a dois meses, vai ver...
─ É assim que se fala. Então mãos à obra.
Não vou dizer que foi fácil. Mais de dois anos de cama e um organismo
debilitado não se recupera tão rápido, mesmo quando se é tão jovem.
Com as duas pernas engessadas, depois de dois meses das cirurgias, eles
colocaram saltinho nos aparelhos de gesso.
O doutor me disse que fosse tentando aos poucos colocar os pés no chão. Que
o fizesse com tranqüilidade.
A sensação de milhares de formigas em minhas pernas e pés não significava
nada para mim, porque as dores haviam finalmente me deixado.
Eu me recordo que estava na varanda, na cadeira de rodas, e pedi à minha
mãe que me trouxesse as muletas.
Ela quis me ajudar e eu disse que me deixasse tentar sozinha.
Eu caminhei com duas pernas engessadas, com duas muletas sob os frágeis
braços. Minha mãe e minha irmã que assistiam a cena choravam e riam como duas
bobas.
Eu me sentia um bebê dando os primeiros passos.
Na entrada da casa há uma passagem, como uma pontezinha, que liga a varanda
à calçada.
Ali eu caminhei e senti que havia uns braços me carregando. Eram as mãos de
Deus me levantando, me encorajando.
No mesmo dia eu desejei um banho de chuveiro (todos os dias tomava um
banho, mas sobre o leito). Minha mãe colocou uma velha cadeira, embalou minhas
pernas em sacos plásticos e quando senti a água caindo sobre mim deu-me um
tremor tamanho que pensei morrer.
Novamente minha doce mãezinha me embrulhou nas toalhas e me carregou para a
cama.
Eu não era mais uma criança. Era uma moça e já ia completar dezoito anos.
A recuperação acabou acontecendo muito mais depressa do que pensávamos,
apesar do incidente do banho.
No final do mesmo ano eu estava trabalhando, estudando e conheci o amor.
Fui abençoada por Deus. Fiquei totalmente curada e fui mãe por duas vezes,
o que surpreendeu a todos que acompanharam minha doença.
Pelos caminhos da vida fui encontrando muitos obstáculos, mas algo sempre
me dizia que venceria. Algo sempre me fazia acreditar que eu superaria.
Se havia tombos em dois tempos eu me levantava e recomeçava.
Nos últimos tempos esmoreci e aos poucos começo a me fortalecer de novo.
Todas as manhãs tenho caminhado pelo período de uma hora ou pouco mais e
hoje, enquanto caminhava, recordei este tempo duro de minha juventude. Recordei
também meu sogro que está muito velhinho e tem as duas pernas amputadas há
alguns anos.
Senti desejos de me ajoelhar ali mesmo no meio da rua e pedir ao Pai do céu
que me perdoasse por não estar todos os dias agradecendo meus pés perfeitos e
meu longo caminhar pelas estradas da vida. Vamos nos esquecendo... a vida vai
se modificando e vamos nos esquecendo...
sonia delsin

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