sexta-feira, 16 de maio de 2014



O SONHO DESTA NOITE

Deus! Esta noite eu tive um sonho bem estranho e lindo.
Sonhei que era uma folha e que descansava sobre as águas de um rio.
As águas sob mim eram límpidas. Do leito do rio eu contemplava um céu anil encantador e uma mata que brilhava numa manhã com todo esplendor.
Sonhei que o movimento da água me embalava. Eu me sentia uma criança num colo tão aconchegante.
Era quase imperceptível o movimento.
Havia naquela manhã calmaria e a paz do momento por inteiro me invadia.
Eu não tinha passado, não havia futuro a idealizar. Nada, nada além do momento.
Que felicidade eu sentia. E paz, principalmente paz.
Não queria que as águas me carregassem para outro lugar. A novidade sempre me cativou, mas naquele instante eu abria mão dela. Queria que aquelas águas serenas, aquele céu lindo e as árvores se petrificassem. Tudo ficasse imortalizado. Não queria uma mudança. Tudo daquela forma. Eu, congelada num tempo único.
Pensava desta forma e não estranhava nada estar na forma de folha caída de uma árvore.
Eu já experimentara antes ser pássaro, borboleta, anjo.
Que novidade ser folha! Se até cacto eu já fora...
Pensava numa forma de parar o tempo, pensava seriamente.
A varinha de condão da fada madrinha me vinha à cabeça e um balançar mais forte me assustou.
Não era nada demais. Um peixe que nadara sob mim.
Eu ia naquele balançar sereno buscando a forma de segurar o tempo quando o tronco de árvore se rompeu e quase caiu sobre mim.
As águas revoltas me jogaram de lá para cá. Desequilibrei-me e me vi em meio a uma corrente mais forte, bem no canal do rio.
Então já não podia mais pensar em tempo, em maneira de parar. Tinha é que pensar numa forma de minha pele salvar.
Mas se já era uma folha morta...
Mesmo assim tentei buscar uma tabua de salvação. Qualquer coisa que me ajudasse.
De repente, à minha frente, uma cachoeira. Era o fim da picada. Adeus folha. Eu precisava dizer adeus às árvores que agora pareciam correr. Era eu correndo contra o tempo. Eu buscando outro tempo. Haveria outro tempo de calmaria mais à frente? Eu sobraria inteira?
Ou ficaria muito machucada, esmagada? Havia esperança para mim?
Pronto, o salto. Que altura!
Olhei lá de baixo meio de soslaio e de forma tão desajeitada. Se fui forte o suficiente para suportar aquilo nada mais me amedrontaria.
Ó, não! Outra queda d’água.
Desta vez rolei feito um porco no espeto.
Que coisa boba eu pensei! Porco no espeto.
Vi-me criança. Recordei Neno. É nome para se colocar num porquinho?
Meu querido Neno. Comia em minha mão.
Virou jantar para aquela família tão distinta.
Era tão amigo aquele senhor e levou meu porco de estimação sem que eu percebesse.
Que inocente eu era! Fiquei esperando que ele trouxesse de volta o meu amigo Neno.
Pronto. Tudo acabado. Novamente me encontro na calmaria. Analiso todas as minhas partes e vejo que não saí tão ferida. Até que me saí bem. Soube driblar a morte.
Mas que morte para quem está morto?...
Não posso ficar confusa de novo. Agora é calmaria. Lentamente me aproximo da margem e encosto-me num tronco amigo. Abraço-o e me levanto.

Já sou humana de novo. Encontro o caminho de volta em dois tempos, porque já amanheceu.

sonia delsin

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