O
SONHO DESTA NOITE
Deus! Esta noite
eu tive um sonho bem estranho e lindo.
Sonhei que era
uma folha e que descansava sobre as águas de um rio.
As águas sob mim
eram límpidas. Do leito do rio eu contemplava um céu anil encantador e uma mata
que brilhava numa manhã com todo esplendor.
Sonhei que o
movimento da água me embalava. Eu me sentia uma criança num colo tão
aconchegante.
Era quase
imperceptível o movimento.
Havia naquela
manhã calmaria e a paz do momento por inteiro me invadia.
Eu não tinha
passado, não havia futuro a idealizar. Nada, nada além do momento.
Que felicidade
eu sentia. E paz, principalmente paz.
Não queria que
as águas me carregassem para outro lugar. A novidade sempre me cativou, mas
naquele instante eu abria mão dela. Queria que aquelas águas serenas, aquele
céu lindo e as árvores se petrificassem. Tudo ficasse imortalizado. Não queria
uma mudança. Tudo daquela forma. Eu, congelada num tempo único.
Pensava desta
forma e não estranhava nada estar na forma de folha caída de uma árvore.
Eu já
experimentara antes ser pássaro, borboleta, anjo.
Que novidade ser
folha! Se até cacto eu já fora...
Pensava numa
forma de parar o tempo, pensava seriamente.
A varinha de
condão da fada madrinha me vinha à cabeça e um balançar mais forte me assustou.
Não era nada
demais. Um peixe que nadara sob mim.
Eu ia naquele
balançar sereno buscando a forma de segurar o tempo quando o tronco de árvore
se rompeu e quase caiu sobre mim.
As águas
revoltas me jogaram de lá para cá. Desequilibrei-me e me vi em meio a uma
corrente mais forte, bem no canal do rio.
Então já não
podia mais pensar em tempo, em maneira de parar. Tinha é que pensar numa forma
de minha pele salvar.
Mas se já era
uma folha morta...
Mesmo assim
tentei buscar uma tabua de salvação. Qualquer coisa que me ajudasse.
De repente, à
minha frente, uma cachoeira. Era o fim da picada. Adeus folha. Eu precisava
dizer adeus às árvores que agora pareciam correr. Era eu correndo contra o
tempo. Eu buscando outro tempo. Haveria outro tempo de calmaria mais à frente?
Eu sobraria inteira?
Ou ficaria muito
machucada, esmagada? Havia esperança para mim?
Pronto, o salto.
Que altura!
Olhei lá de
baixo meio de soslaio e de forma tão desajeitada. Se fui forte o suficiente
para suportar aquilo nada mais me amedrontaria.
Ó, não! Outra
queda d’água.
Desta vez rolei
feito um porco no espeto.
Que coisa boba
eu pensei! Porco no espeto.
Vi-me criança.
Recordei Neno. É nome para se colocar num porquinho?
Meu querido
Neno. Comia em minha mão.
Virou jantar
para aquela família tão distinta.
Era tão amigo
aquele senhor e levou meu porco de estimação sem que eu percebesse.
Que inocente eu
era! Fiquei esperando que ele trouxesse de volta o meu amigo Neno.
Pronto. Tudo
acabado. Novamente me encontro na calmaria. Analiso todas as minhas partes e
vejo que não saí tão ferida. Até que me saí bem. Soube driblar a morte.
Mas que morte
para quem está morto?...
Não posso ficar
confusa de novo. Agora é calmaria. Lentamente me aproximo da margem e
encosto-me num tronco amigo. Abraço-o e me levanto.
Já sou humana de
novo. Encontro o caminho de volta em dois tempos, porque já amanheceu.
sonia delsin

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