sexta-feira, 16 de maio de 2014



UM VOO PARA UMA TERRA INÚTIL?

Trinta anos passados.
A janela ainda está aqui. A vista não mudou tanto e se mudou não importa.
As flores plantadas sob ela ainda florescem continuadamente. O perfume, o cheiro da grama cortada. Num canto a enxada recordando que a terra revolvida desprende um odor agradável. Cheira vida.
Não me mexo. Não quero espantar o João-de-barro.
Ele está tão empenhado em construir seu ninho.
Uma lágrima quer nascer. O peito apertado.
As folhas do coqueiro balançando.
Começo a relembrar alguém tão especial e o vejo diante de mim.
Meus olhos marejados não conseguem mais identificar a realidade.
Mas ele está ali no meio do gramado e vira a mangueira d’água em minha direção como fazia quando me pegava distraída a vagar.
Sufoco um grito... parece que alcanço o infinito.
Pai. Você vive ainda em mim. Claro que você vive. Está acompanhando meus passos. Todos. Gosto de pensar assim...
Eu voei para uma terra inútil. Você sabe disso?
Busquei alguma coisa inalcançável.
Há horas em penso na realidade e no sonho. Os meus sonhos enterrados sob folhas voaram. Folhas amareladas. O tempo...
Meu querido, eu estive sempre a recordar esta janela. Os sonhos que tive  debruçada nela.
Minha busca por uma terra singular.
Pai, a vida toda eu estive a divagar. Eu estive a poetar, a imaginar.
Você não sabe, mas eu continuo a esperar. Não desisto de sonhar...

sonia delsin

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