sexta-feira, 16 de maio de 2014



CONTE ATÉ DEZ

“Se contar até dez encontrará a calma dentro de seu coração”. Ele me dizia e eu não me esqueci.
É verdade! Quantas vezes a fúria queria me dominar e eu começava a contar. Lentamente. Um, dois, três... lentamente...
Todos os meus músculos relaxavam e eu me encontrava de novo calma.
Pronto. Era só começar a contar. E assim os anos passaram.
Quem foi esta figura que me falou esta sábia frase?
Vou contar.
Um homem pequenino. Uns olhos inteligentes, fala mansa.
Ele tinha mãos quentes, pequeninas.
Tomava as minhas entre as suas e falava comigo como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo. Naqueles momentos eu era.
Que amigo eu encontrei numa hora de dor!
Eu estava de mal com o mundo, comigo, com tudo que me rodeava. Não achava graça em mais nada e ele veio me visitar a pedido de minha mãe.
─ Mas é uma menina ainda! Ele exclamou ─ O mundo é lindo, pequena sonhadora.
─ Como sabe que sonho?
─ Está escrito nos seus olhos.
Sorri.
─ Quer andar de novo, não quer?
─ É o que mais quero no mundo.
─ Então precisa encontrar um caminho dentro de você para chegar até Ele.
─ Ele me esqueceu...
─ Não seja ingrata. Um Pai jamais esquece um filho.
Então eu perguntei olhando aquelas pernas inúteis.
─ E o que significa isto?
Ele acariciou-me com o olhar e falou que eu precisava encontrar sozinha uma estrada que me levasse até o Pai.
Aquele homem, de certa forma foi o farol que me indicou o caminho e o fez de uma forma imperceptível.
Depois de muito tempo eu descobri que suas visitas não eram para tomar um cafezinho e para papear um pouquinho como costumava dizer quando chegava. Ele trazia Deus para dentro de mim de uma forma que eu nem me dava conta na época.
Mané, não o esqueci. Sei que ainda vive e está muito idoso, mas queria tanto que soubesse que nunca o esqueci. Sei do tempo que esteve na Europa. Recebi os livros e o crucifixo de prata. Sabe, ele sempre esteve na cabeceira de minha cama.
Hoje eu recordei a frase. “Conte até dez minha querida e a calma chegará ao seu coração”.
Tantas vezes esta frase me confortou.
Obrigada por existir. Obrigada por aqueles dias, obrigada por sua presença em minha vida que se fez uma coisa eterna e marcante.


sonia delsin

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