sexta-feira, 16 de maio de 2014



A DENTADURA DESAPARECIDA

Cheguei cansada ontem à tarde.
Não era apenas cansaço físico. Estava um pouco abalada com alguns acontecimentos. Afinal estava voltando de uma missa de corpo presente. A mãezinha do padre da nossa comunidade faleceu e foi velada na igreja que fica aqui na rua onde moro.
Vinha de coração apertado. Eu acredito na vida eterna e rezei bastante durante a missa, mas mesmo assim ficamos comovidos.
Logo que entrei em casa o telefone tocou e era minha sobrinha neta e ela perguntou se eu estava bem.
Falei: Estou sim. Por que, Duda? O que aconteceu?
Ela respondeu que chegou à casa da vó Lili (bisavó dela) e esta estava falando enrolado e ela achou aquilo esquisito. Então notou que a vó Lili estava sem a dentadura.
Perguntei: Mas o que aconteceu afinal, Du?
Ela foi dizendo que tinham procurado em todo canto e nada de encontrarem.
Pedi que passasse o fone para minha mãe e ela foi me explicando: Não sei o que aconteceu. Não encontro a dentadura.
Minha mama está com oitenta e três anos. É lúcida e super independente.
Achei estranho e lhe falei:
Mãe, você lembra que quando perdíamos alguma coisa você nos dizia que deveríamos rezar a Salve Rainha até o mostrai e a mãe do céu nos mostrava...
Comecei a rezar dentro do coração a Salve Rainha e ela me falou:
Achei, filha. Estava no canteiro de flores. Acho que dei um espirro e enquanto tirava umas ervas daninhas e ela saiu de minha boca...
Acabamos rindo.
Minha mama se despediu dizendo:
Viu como a Nossa Senhora nos atende na hora?
E não foi?
Bem. Minha mãe mora em outra cidade e este fato aconteceu ontem à tarde.
Hoje ela me ligou pedindo desculpas. Falou que não queria que a Duda ligasse para me preocupar com estas coisas.
Falei que estava tudo bem. Que foi engraçado.

sonia delsin


NÃO VIVO APENAS ESTA VIDA

Não vivo apenas este tempo de agora.
Eu vivo outras vidas num ser onde tudo cabe.
Onde tudo ficou armazenado.
Não que eu viva de passado.
Mas tenho conhecimento.
Passei por muito sofrimento.
Pra chegar aqui andei por muitas estradas.
Chorei nas encruzilhadas.
Mas também dei tantas risadas.
Não foi um riso tolo, fútil.
Foi-me muito útil.
De tudo que passei uma coisa eu guardei.
Uma criança no coração.
Uma criança que conserva a ilusão.
Que conserva o sonho, a fantasia.
Uma criança que se encanta com o mundo.
Conservo este ser que ama a poesia.
Que nas pequenas coisas da vida encontra a alegria.
Guardo a lembrança de um amor sem igual.
Até já me equivoquei pensando tê-lo encontrado.
Pensando tê-lo ao meu lado.
Mas não era o meu eterno amado.
Se fosse jamais teria me magoado.
Ele nunca teria me machucado.
Sigo buscando esta criatura que fez parte de outro tempo meu.
Estará pelo espaço sideral?
Estará aguardando outra encarnação?
Quem me garante alguma coisa?
Posso até estar equivocada.
Mas ninguém nunca nos afirma com convicção nada.
Acredito que somos muito mais do que o pó da estrada.


sonia delsin


JOVEM SIM. POR QUE NÃO?

Ela me contou hoje esta estória e eu a repasso para vocês.
Foi uma senhora de oitenta e um anos que me contou tudo.
Falou-me que se sente jovem. Que redescobriu a vida.
No seu jeitinho simples e super simpático me contou que um dia comentou com os filhos que desejava ir para um asilo e estes falaram que ela não tinha necessidade alguma disso.
Morar na companhia deles, ela não queria.
Começou a frequentar uma faculdade de terceira idade, conheceu muitas pessoas e viu sua vida mudar a cada dia.
Contou-me que dança todos os domingos à tarde, e que os idosos se encontram para jantar e bater papo às quintas-feiras. Falou que sempre adorou dançar e que na juventude não perdia um só baile. Que depois do casamento se viu privada disso. Não só disso, mas de muitas coisas.
Encantada com viagens e passeios diz que tem uma disposição de jovem e nem é preciso que ela diga, pois está estampado em sua imagem risonha.
Emocionou-me esta senhora pelo jeito cativante, pela energia tão positiva.
Diz que cem anos é o mínimo que deseja viver e acredito que passará mesmo disso com seu alto astral.
É uma jovem senhora de oitenta e um anos de olhos brilhantes, fala mansa. Tão meiguinha que dá vontade de beijá-la.
Aconselhou-me a dançar, vibrar com a vida.
Quem a vê participando das atividades não consegue acreditar que tenha mesmo oitenta anos. É vivaz.
Percebi algo nela. É sagaz. Nada lhe escapa. Tem o raciocínio tão rápido que chega a espantar.
É maravilhoso encontrarmos em nosso caminho pessoas tão maravilhosas como ela. Sei que seremos muito amigas ainda, porque ela me conquistou com a primeira conversa.


 sonia delsin


MÃE QUERIDA

Mãe, muito já lhe falei de meu amor.
Não só falei, como demonstrei.
Tantas vezes silenciosamente conversamos.
E outras tantas dialogamos.
Tudo que me falou ficou gravado em meu ser.
E isto quanto me ajudou em meu viver.
Como falar de seus olhos azuis?
São lagos transparentes.
Outras horas transbordam como rios com enchentes.
Quando me olha com tanta ternura
faz com que eu me sinta a coisa mais pura.
Mãe, você é toda doçura.
Nunca que apagarei o dia que a cabeça entre seus joelhos eu enterrei e chorei.
Era uma menina, lembra?
Uma menina-moça.
Suas pernas com minhas lágrimas eu lavei.
Eram lágrimas quentes... de dor ardentes.
Naquele dia eu soube que o peso do mundo não estava apenas sobre as minhas costas.
Éramos nós duas a sentir a carga e ela seria aliviada então.
Porque você estaria sempre me ajudando naquela provação.
Nossos momentos, mãe querida, são tantos que não cabem num poema, numa crônica ou num conto...
Seriam necessários muitos.
Mas não quero falar de tristezas neste seu dia.
Quero falar de alegria.
Ando feliz, sabe?
Daí deve sentir as batidas de meu coração. E deve ouvir o ressoar de meus risos.
Nós duas temos grande sintonia.
Quantas vezes quando não podia viajar eu a visitava de uma forma diferente.
Era pura telepatia? Magia?
A saudade eu ia matar e matava mesmo.
Vinha nova pra meu mundo depois de visitar nosso recanto feliz.
Esta casa onde você vive é um ninho, é tudo de bom, é carinho.
Não posso estar ao seu lado, mas estou, minha querida.
Nos meus pensamentos... no coração.
Porque nele você vive, reina, como rainha absoluta que é. É meu anjo, é minha luz.
Esta simples cartinha de forma alguma meu imenso sentimento traduz.

sonia delsin


O BROCHE QUEBRADO

Dudinha e eu explorávamos a caixa de “jóias” da bisa (nada a convence a chamar a bisavó de bisa como gostaríamos)... Chama-a de vovó Lili.
Quem diria que um dia alguém chamaria a D. Lina de Lili? Mas Duda gosta e ficou.
Eu sei que mamãe adora isso.
Bem, nós duas fuçávamos lá e encontramos o broche quebrado.
─ Tia, que é isso?
─ Um broche, linda.
─ Pra quê?
─ Pra enfeitar um pouco a vovó.
─ A Lili usa isso? ─ ela perguntou fazendo uma careta. ─ Que feio. Vou jogar fora.
─ Não, mas tem dona. Precisa perguntar pra ela se pode.
─ Ela não vai querer mais isso não, titia. Tá quebrado.
─ Vai lá e pergunta se pode jogar então.
Aquele toquinho de gente saiu correndo com o broche na mão.
Engraçado. Ela adora as bijuterias de minha mãe. Desde pequenininha ela sempre colocou os colares. Nós ríamos muito ao vê-la com vários deles dependurados no pescoço. E os anéis que lhe caiam dos dedos. Ela tentando erguer os dedinhos pra segurar...
─ Duda, Duda! Vai devagar.
Ela nem parecia me ouvir tal a pressa.
Agora ela gosta mais de brincar com nosso celular, adora mexer em nossos batons e explora nossas bolsas em busca destas coisas.
Bem. Naquele dia ela simplesmente desistiu de perguntar pra vovó Lili se podia jogar o broche fora e veio novamente guardar na caixa onde estava.
Do mesmo jeito que saiu correndo pra perguntar, voltou e depositou aquele objeto quebrado  na caixa.
Sempre adorei crianças e Eduarda é nossa preciosidade.
“Duda, estou com saudade... com uma vontade de te ver, te abraçar...”


sonia delsin


UMA ESTÓRIA DE AMOR

O ano de mil novecentos e setenta e três ia terminando e eu resolvi assistir os jogos de voleibol no colégio esportivo da cidadezinha onde morava.
Eu saía de casa pela segunda vez depois do drama que me marcara.
Mancava feiamente ainda, mas quisera ver os jogos finais (levei um tempo pra me recuperar e felizmente fiquei completamente curada).
Nossa! Nunca esquecerei aquele dia, nunca, nunca...
Eu vi no meio de toda aquela gente na arquibancada uns olhos que me fascinaram. Pensei naquele instante que aqueles olhos já tinham feito parte de minha vida. Eram aveludados, escuros e tristes.
Os olhos que tanto me encantaram não se voltaram para minha direção e no dia seguinte eu fazia uma viagem.
Ausentar-me-ia da cidade por alguns meses.
Partia, como já estava programado, mas levava a lembrança daqueles olhos comigo.
Quando voltei não o reencontrei e o tempo ia passando. Já se aproximava do terceiro mês do ano seguinte e um belo dia nos reencontramos. Desta vez aqueles olhos escuros se voltaram para mim e um tremor percorreu meu corpo.
Alguns meses depois estávamos namorando e como fomos felizes juntos. Tanto, tanto. Por mais de vinte e cinco anos...
Até que um dia os olhos escuros que sempre me fitavam com tanto amor se distanciaram. Ficaram frios, irreconhecíveis mesmo.
Era o fim de uma linda estória de amor e eu não podia mudar uma vírgula dela. Simplesmente não podia.


sonia delsin


ME DÓI TE VER ASSIM, MENINO.

Ah, menino.
Um dia me apresentaram a ti.
Foi durante um musical.
Naquele dia pouco falamos.
No outro dia nos reencontramos e conversamos.
Outras vezes nos vimos.
Nadamos juntos.
Ficamos amigos.
E eu te disse coisas que diria a um filho.
A ti eu me apeguei.
És tão bonito.
Lindo mesmo.
Soube de teu passado.
Do caminho do sucesso e do caminho das drogas.
Soube que tentaram de ajudar.
Por que fugiu de lá?
Eu te vi um dia destes e senti uma dor no peito.
Não pudemos conversar.
Foi de relance que te avistei.
Meu querido, eu queria te falar, mas não sei onde posso te encontrar.
Na verdade estás num labirinto e eu queria te mostrar uma saída.
Por que será que conhecemos pessoas tão especiais e nada por ela podemos fazer nesta vida?
Menino, menino. Quando é que vais crescer? Rezo por ti, que mais eu posso fazer?

sonia delsin


QUERIDA IRMÃ

Minha querida irmã, nós nascemos no mesmo lar. Existe uma razão para isso? Claro que existe. Existem mil razões.
Vamos aos fatos.
Você sempre foi uma irmãzona. Destas que são como mães para nós e ficamos sem palavras diante de seus gestos e sua dedicação.
Se eu fizer uma retrospectiva de nossas vidas encontrarei fatos magníficos e gosto disso.
Tem dias em que eu me deito na rede e me deleito com as reminiscências. Quanta beleza nos cercou! Que infância rica tivemos!
Muitos diriam. Que graça tem nascer num lugar tão simples? Uma chácara no interior do estado de São Paulo. Mas como era bonito tudo aquilo!
Se aquele tempo passou depressa?
Foi um tempo longo. Tão longo que nos marcou a alma, porque convivemos num ambiente bucólico e extremamente puro.
Jamais esquecerei a porteira. Você espiando os ensaios das fanfarras. Seus olhos brilhavam tanto. Como você amava tudo aquilo!
Jamais esquecerei as frutas que comíamos quando chegávamos do colégio. Nunca vou me esquecer que foi com você que aprendi a ler e escrever e como eu sabia ser chata tantas vezes. Pegajosa e curiosa. É que eu tinha uma sede imensa de aprender e você era mais velha, mais sabida, mais preparada para a vida.
Mana, nunca vamos esquecer aquele paiol, as espigas de milho, as palhas e a comichão que aquilo nos dava. Éramos pequenas e tínhamos obrigações.
E nossos primos quando chegavam? Ficávamos deslumbradas com o fato deles morarem na capital do estado. Nós pensávamos que eles eram chiques e nós muito humildes. Lembra disso?
Como vamos esquecer as jabuticabeiras carregadas? As tempestades? A nossa nona. Nossa mãe que vivia cantarolando e nosso pai enérgico e tão astucioso. Apesar de ser um filho de italianos, um homem do campo, ele estava muito à frente do tempo que viveu e nos passava mensagens que jamais esqueceremos.
Depois que nos mudamos de lá muita coisa mudou. Já entrávamos na adolescência. A idade dos encantos.
Você sempre trabalhadeira e filha preocupada com o bem da família já pensava num futuro melhor e foi em busca disso.
Encontrou o que buscava?
Sempre encontramos o que buscamos.
Minha querida Ana, você é uma vencedora e eu sinto um orgulho enorme de ser sua irmã. De ter partilhado a vida com você.
Eu acredito que quando você olha para trás sente satisfação e paz. Veio cumprir uma missão e o fez da melhor forma.
Minhas palavras sempre serão poucas para lhe agradecer.
Só posso dizer: Obrigada, Meu Deus, por ter me dado uma irmã tão maravilhosa.

Todo meu carinho,


Sonia Maria

sonia delsin


ESTOU APRENDENDO, MÃEZINHA

Mãe, um dia você me viu em prantos e se afligiu.
Puxou-me pro seu peito. Alisou meus cabelos e falou que não queria mais me ver chorando. Que o meu sofrer estava lhe machucando.
Eu também sou mãe e sei como é duro ver um filho chorar e não poder ajudar. Não poder seu sofrimento aliviar.
Mas você também falou uma coisa boa. Falou que na vida eu ainda ia encontrar muita alegria.
Mãe, você estava certa. Mais do que certa.
Eu aprendi. Na verdade estou aprendendo. Custou um pouco. Precisei me despir de algumas irrealidades para achar minhas verdades.
Sabe, nós nos acostumamos a caminhar pelos mesmos caminhos e insistimos tantas vezes nos erros. Mesmo querendo tanto acertar temos dificuldades em encontrar a forma correta de chegar.
Acontece que um dia como num estalar de dedos, sei lá... só sei que acabamos acordando pra vida e descobrindo os atalhos. Descobrimos onde estávamos errando.
Minha querida. Tudo podia ter sido tão diferente. Mas não foi. E o passado não se muda...o tempo já o guardou da forma que aconteceu.
O que podemos é fazer um agora diferente. Isso sim. Nós o temos em mãos...é um presente que nos foi dado.
Então, mãe... é o que tenho feito.
A cada manhã que nasce eu penso no lindo dia que terei à minha frente. Nas oportunidades que me aparecerão, porque sempre aparecem.
Demoramos muitas vezes pra nos encontrar, mas nunca é tarde para sentir no peito esta sensação de plenitude.
Eu lhe garanto que hoje sou muito mais feliz do que na minha juventude. Tenho de volta a minha liberdade e tenho maturidade.
Não vou lhe dizer que não vou chorar mais, porque as emoções precisam fluir. Precisamos desaguar quando o coração fica apertado. A vida se apresenta de tantas formas e maneiras, mas uma coisa boa eu tenho feito. Tenho sido eu mesma... me dedicado a mim como nunca... Estou investindo na minha pessoa, neste ser que nasceu para ser feliz...
Eu sei que isto a tranquiliza e a alegra. Esta sua filha, mãe, cresceu uns centímetros a mais nos últimos tempos... ela galga os degraus.. confia, avança...tem no corpo e na alma muitas marcas, mas conserva a pureza de criança.

sonia delsin


AS ÚLTIMAS BRAÇADAS

Parecia que não ia conseguir. Mas era muito pouco que faltava.
Somente umas dez braçadas. Eram apenas algumas braçadas para alcançar a minha meta de todo dia, meus mil metros.
Eu tinha que chegar, porque nunca fui de me entregar.
Naquele dia confesso que tive um pouco de medo. Começou a bater uma angústia.
Senti-me de repente tão frágil na raia de natação.
Estávamos dividindo-a. A jovem que me fazia companhia devia ser uns vinte anos mais jovem que eu.
Enquanto dava as últimas braçadas para completar a piscina pensava na vida e no quanto eu lutei para chegar aonde cheguei.
Deus, eu pensava, me destes um corpo tão vulnerável. Mas a alma que o habita tem uma energia tão grande.
Ela possui tanta coragem pra se levantar depois de cada tombo que chega a assombrar algumas pessoas. Uma enorme vontade sempre me comandou. Não gosto de ficar lembrando as coisas duras que passei, porque o passado já se foi. Mas existem momentos que recordar é inevitável.
Quando cheguei ao final da piscina fiquei olhando todas as pessoas que lá se encontravam, olhei um a um os que brincavam na parte de recreação. Depois os que participavam ativamente da natação. Enquanto meu corpo relaxava, eu observava tudo.
Lembrei de tantos fatos enquanto fazia este exame minucioso de cada pessoa presente.
Veio-me ao pensamento um médico de cabelos grisalhos. Já se passaram tantos anos e ele me chegou.
Parecia que estava mesmo à minha frente me fitando nos olhos e perguntando: ─ Você tem fé, garota?
─ Claro que tenho ─ respondi.
─ É bom mesmo que tenha, porque vai precisar muito dela. Vou ser bem claro com você. Existe apenas uma possibilidade num milhão de você ficar curada. Acredita que possa conseguir?
─ Se existe esta uma eu vou agarrá-la, doutor ─ eu falei.
Tinha dezessete, quase dezoito anos, e muito já tinha provado da dor e do desespero na vida.
Ele segurou minha mão.
─ Vou voltar a andar, doutor Fábio. Eu quero muito isso.
─ Então vamos lá, minha filha.
A enfermeira foi empurrando a maca em direção ao centro cirúrgico e meus olhos se prenderam no teto.
Existia uma chance de deixar a cadeira de rodas. Uma. E eu ia conseguir.
Acordei horas depois na sala de recuperação, sentindo intensa dor nos dois pés.
Depois de um tempo fui levada para o quarto e minha mãe ficou segurando minha mão, pois eu tremia muitíssimo...

O período pós-operatório se passou... os meses passaram. Exatamente 3 meses depois desta data eu dava os primeiros passos. Foi um reaprender a caminhar, mas em pouco tempo eu já estava bem.
Por muitas outras fases duras passei na vida, mas esta foi marcante. Eu tinha que acreditar com todas as forças de meu ser e acreditei. Depois disso tudo ficou mais fácil em meu viver. Descobri que existia dentro de mim a fé.

sonia delsin


UMA LOUCA CARTA DE AMOR

Minha alma gêmea, ontem nós tínhamos um encontro marcado.
Nem sabíamos, mas tínhamos.
Ontem nos reencontramos.
Eu o reconheci de imediato e falei.
Você riu. Zombou. Não acreditou.
Depois... bem, depois você refletiu.
Muito pensou e com minhas idéias concordou.
Foi um encontro onde duas almas se despem de sonhos antigos.
Despem-se de sonhos atuais.
De momentos reais.
Então nos estendemos num ontem...um ontem muito longínquo e deparamos com absurdas constatações.
Sentimos tantas emoções.
Revistamos porões.
Amargamos com deplorações situações.
Então já não éramos desta época de agora e nem queríamos ser.
Éramos de um outro tempo. Mas o de agora nos cobrava.
Havia momentos em que éramos dois jovenzinhos a correr... a correr...a perseguir um amor impossível.
Noutros éramos dois adultos querendo abraçar quimeras.
Querendo reviver outras eras.
Numa simbiose perfeita vivíamos passado e presente.
Tudo misturado. A sala a contar passagens. A sala sendo visitada.
Não mais a sala, mas vozes...
Vozes chegavam onde antes morava o silêncio.
Tempo de encantamento.
Tempo de loucuras mil...
Por fim a dor, a distância. Um novo adeus?
Não agüentamos o peso dos anos. A cobrança dos dias e também o passado que vinha ora leve, ora pesado como chumbo.
Era mais eu a sentir, eu a dizer, eu a mostrar...
E era você fugindo de meu olhar. De meu sonhar, de meu cobrar.
Mas nossas mãos que distantes estão se buscam. Nossos olhos que não cruzam enxergam através de olhos eternos.
Meu amor, a verdade é que nos distanciamos por força das circunstâncias, mas algo irremediavelmente nos aproximou. Nos aproxima.
Foi o eterno que nossa estória guardou e que de novo frente-a-frente nos colocou.
Somos um do outro, ou fomos...
Já não sei mais.
Vivemos fugindo dos sentimentos, mas ele existe e insiste.
Sempre fui sua e sou. Mesmo que não vejamos mais.
Mesmo que o vento do tempo o carregue até outro momento lá na frente. Num tempo vindouro pode dar certo de continuarmos nossa estória. Ou mesmo nesse.
Quem sabe? Quem garante que tudo acabou?
Se seu olhar no meu mergulhou e eu lhe reconheci como meu amado de sempre quem vai nos separar? A vida que parece de nós dois zombar? Uma feiticeira que brinca de nos aproximar?
Sei apenas que minha alma gêmea me chegou e eu a toquei com sutis dedos do bem-querer.
Mas ela se amedrontou perante o peso de tantas vidas guardadas.
E eu também me assustei, mas foi com tantos desencontros... noutras vidas, nesta...

Mas acredito ainda que haverá outras... algo me diz que ainda haverá tempo para nós...

sonia delsin


VEJAM... ...AGORA É A VEZ DA MINNIE

O bebê que adorava o Piu-piu já cresceu.
Tainá agora admira a Minnie, a ratinha charmosa da Disney.
Mas olhem só.
Ela já não se parece mais com um bebê.
Está com carinha de menininha.
Os olhos lindos estão mais doces.
As mãos pequeninas já seguram caneta e ela tenta me imitar fazendo traços e rabiscos no papel.
Já não usa fraldas e caminha com segurança.
No corte moderno dos cabelos e nos modelitos vemos que ela cresceu muito neste ano que se passou.
Os cabelos escureceram um pouco, mas a pele branca ainda é a mesma.
Tainá ainda é um anjo loiro e traz no semblante amor, paz.
Ela veio para enfeitar a vida dos pais, da avó, do bisavô, dos entes queridos enfim. 
E por que não a de todos que de algum modo participamos de sua vidinha?
Nós a amamos pequenina e esperamos que esta data se repita por muitos e muitos anos.
Esperamos que você cresça em graça e beleza e que na vida muito sucesso e glória permeie seu futuro.
Todos nós desejamos para você tudo de bom que a vida possa lhe oferecer.
Parabéns, minha afilhada querida, seja muito feliz.

Beijos...

sonia delsin


UMA CRUEL PALAVRA

Mãe, você estava ao meu lado naquele momento de sofrimento.
Nós duas abrimos aquele envelope. Nós duas lemos ao mesmo tempo o que estava escrito ali. Um diagnóstico desesperador. Uma palavra cruel.

Não pode ser eu pensei.
Não pode ser...
Deus! Não comigo.
Isto é castigo?
Eu não tinha poder sobre meus pensamentos que chegavam.
Eles vinham como uma torrente.
Invadiam todo meu ser que já estava cansado de sofrer.
Mais isto não.
Não vou suportar.
Como vou aguentar?
Era tanto medo. Era pavor.
Eu me esquecia da minha força interior.

E hoje estou aqui. Estou bem e posso até rir daquele dia de agonia.
Mas foi uma dura provação.
Só quem passa pode avaliar.

Mais do que tudo precisamos dentro de nós mesmos todas as forças encontrar.

sonia delsin


O PODER DAS MÃOS

Hoje eu vou lhes contar...
Um dia descobri que as minhas mãos dores conseguiam eliminar.
Sim. Elas possuem uma força poderosa.
Não estou contando prosa.
Acontece simplesmente.
Alguns entendidos no assunto me garantem que isto pode acontecer a toda gente.
Basta crer.
As dores do joelho de meu filho eram insistentes e ele me pediu uma massagem.
Eu ergui a mão esquerda de palma virada pra cima e com a direita eu fui tocá-lo. Mas eis que descobri que havia uma energia. Algo que fluía.
Pensei: Meu corpo se fez um canal pra curar este mal.
Não cheguei a tocá-lo porque minha destra sentia um campo de força a rodear meu filho.
Entendi que estava acariciando sua aura e fui massageando... massageando.
De olhos fechados permaneci um tempo e quando eu terminei ele me garantiu que a dor tinha desaparecido por completo.
Os dias passaram e ele não voltou a sentir dores no local.
Outras vezes eu me posicionei... elevei o meu pensamento de uma forma muito positiva e outras pessoas massageei.
Fiz isso em mim mesma e o resultado sempre foi bom.
Não vou lhe dizer que sou uma curandeira. Nada disso. Aliás, estou muito longe disso e gostaria de não ser mal interpretada, pois estou escrevendo este artigo de coração aberto. Narrando um fato que se passa comigo. Isto não é feitiçaria, bruxaria ou coisa que o valha. É simplesmente energia captada por uma pessoa para ser transmitida a outra no sentido de fazer o bem.
Eu descobri a massagem prânica da forma mais natural possível (sentindo) e procurei conhecer melhor o assunto...ouvi alguns amigos e me dediquei com carinho.
Alguns anos atrás me afastei porque durante uma massagem pressenti uma doença muito grave num ente querido e ele veio a falecer dois meses depois.
Aos poucos desbloqueei-me e muitas vezes realizo as massagens em meu corpo que sempre foi muito acometido de dores neste meu viver.
Se o mundo que nos rodeia é repleto de energias acho natural que a aproveitemos da melhor forma. Fazendo o bem, eliminando dores.
Eu adoro minhas mãos... adora-as porque elas podem captar energia, porque elas são pura energia, no trabalho, no acariciar. São mãos que não se cansam de trabalhar. E sempre querem muito mais realizar.

sonia delsin